Carta de Amor aos Anos 60

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Se há uma década em que desejava ter vivido em vez desta, eram os anos 60. Nada se compara aos acontecimentos e mentalidades desta época, especialmente nos Estados Unidos. Manifestações em massa, a difusão do LSD, a era dourada do rock n' roll, os movimentos de contracultura, e a culminação de tudo isto: o festival do Woodstock.


Paz e amor eram mantras para os jovens da altura. Não sei se foi graças aos artistas da época, ao LSD ou ao contexto da guerra que todos sabiam que não fazia sentido, mas a população estava a tomar consciência que nem tudo era o que parecia.

"Don't trust anyone over 30", diziam, porque as pessoas mais velhas estavam ainda presas a velhos idealismos e achavam que o governo queria o melhor para elas (parece-vos familiar?).

Os negros sofriam segregação em pleno século 20, e assassínios à luz do dia das pessoas que tentaram inverter este cenário mostraram ainda mais o nonsense da maneira de governar daqueles que decidiam as leis.

Houve um questionar, um duvidar, uma revolução espiritual em grande escala.

Os músicos, atores, escritores da época eram os porta-vozes desta geração subversiva, que desejava mudança, e sabia que para isso acontecer tinham de ser a mudança. Não havia tanto o culto à posse material, ao consumismo, à competição. Por isso, as pessoas pareciam ter mais tempo para pensar do que para obedecer.

Houve uma altura da minha vida em que estudei a fundo os anos 60 nos Estados Unidos. Li, vi e ouvi tanto sobre a década, que comecei a sentir como se a estivesse a viver. Perdi o contacto com a realidade da minha geração, e não senti capacidade de me expressar através da escrita, ou ter alguma ideia sobre que objetivos tinha - porque não sentia que estava a ser a protagonista da minha vida.

Se não tinha fé na minha geração, não tinha fé em mim mesma. Porque se eu sou desta geração, e acho que as gerações ancestrais eram mais sábias e mais capazes, então não parecia existir esperança para mim nem para as pessoas da minha idade.

Porque aqueles que viveram no passado já se foram. Egípcios, gregos, romanos, americanos. Os que fizeram uma marca na História já se foram, é um facto. Mas o que eu me tinha esquecido, ao ler sobre os hippies e a guerra do Vietname, é que a história que mais impacto tem sobre o presente, é a que nós escolhemos contar agora. É a história que nós criamos.

De que serve reler a história dos outros? Falar dos nossos antepassados não nos vai fazer experienciar o mesmo que eles, através da sua perspetiva única e inimitável. É a NOSSA história que causa um impacto no Mundo presente. A história que tem origem nas nossas experiências, que nos fazem ser um exemplo.

Foi lendo sobre os valores da geração da paz e do amor que construí os meus próprios ideais. Foi sabendo do que aconteceu e comparando-o com o que está a acontecer agora que pude restabelecer a minha fé nos meus congéneres, e ter a certeza que temos as mesmas ou ainda mais capacidades de mudar o Mundo do que aqueles que morreram a fazê-lo. Temos informação na ponta dos dedos, temos liberdade de expressão, temos partilha de ideias à volta do globo numa questão de segundos. Temos ainda mais ferramentas ao nosso dispor para ser a mudança que procuramos.

Agradeço aos espíritos livres dos anos 60 por terem sido parte dos eventos mais memoráveis, por terem escrito as mais belas canções, e terem sido o maior exemplo da capacidade humana de ser a favor da paz, em vez de ser contra a guerra. Obrigada por me mostrarem o que tenho o poder de ser, agora mais do que alguma vez na História.


No filme "Meia Noite em Paris", Woody Allen retratou um personagem preso ao passado, um romântico incurável sofredor de nostalgia. Este teve a oportunidade de realizar o seu desejo, e foi transportado para a sua época predileta: os anos 20, em Paris. Nesta viagem ao passado, entendeu o choque entre gerações e o quanto a civilização do presente estava mais avançada, por já terem passado por toda aquela época.

A conclusão a que o filme chega é que a nossa altura predileta deve ser o agora. Alguém que sofra nostalgia de uma época que nunca viveu estará preso a um passado irrepetível e a impedir-se de viver o agora, também ele irrepetível, e a ser a mudança de que os seus tempos precisam.

Com amor,
Cláudia

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